Portugal pode atrair turistas que gastam mais 30%

Gastronomia. O turismo de culinária é um nicho ainda por explorar no país, mas que pode atrair quem gasta até 30% mais nas suas viagens

Há mais de 100 anos, a empresa açoriana de chás Gorreana abriu as portas aos turistas. Foi uma das primeiras empresas mundiais a fazê-lo, bem antes de o turismo gastronómico ser chamariz de viajantes. Hoje, este mercado vale 40% da sua faturação.

São exemplos como este que José Borralho quer estimular em Portugal, para que se possa seguir a tendência de outros países e atrair um nicho de turistas que viaja para comer e que não olha a despesas. "O turismo de culinária é um setor muito recente, com oito a dez anos, e tem nos Estados Unidos o funcionamento pleno. É talvez o único país do mundo onde a gastronomia chega a ser a primeira motivação da viagem", diz o presidente da Associação Portuguesa de Turismo de Culinária e Economia (Aptece) ao Dinheiro Vivo.

Outros países já despertaram para este tema. É o caso por exemplo da Tailândia, onde o governo fez uma aposta na divulgação das iguarias culinárias: "O governo tailandês está a apoiar a divulgação de produtos que possam ser exportados para outros locais do mundo e criou um fundo para a abertura de 600 restaurantes no mundo", conta José Borralho. Não é o único: 82% dos países acreditam na culinária como fator diferenciador, com capacidade para criar um "valor de marca" que possa ser reconhecido pelo mundo fora.

O caso de Espanha mostra que os números não enganam: "É um dos países mais desenvolvidos, com 9,5 milhões de turistas gastronómicos por ano", refere Borralho, adiantando que Portugal tem todo o interesse em desenvolver este nicho, até porque "este tipo de turista em média gasta mais 30% no destino que visita".

No entanto, por cá, a nova tendência ainda é difícil de quantificar. "Em todas as regiões do país os turistas saem com uma opinião positiva sobre a gastronomia, bem mais além do vinho ou do azeite. Diria que estamos no bom caminho. Nunca se falou tanto de Portugal e isso ajuda a desenvolver todos os segmentos do turismo. Dentro de cinco anos chegamos lá", estima o especialista, lamentando a falta de esforços a nível central.

A Aptece tem marcado presença em cada vez mais eventos tradicionais. Em abril, Portugal esteve no Salón de Gourmet em Madrid, no Les Rencontres de Cambremer no Norte de França, onde os produtos da Região Centro foram os convidados de honra, e no Seafood Festival de Boston. Em junho, os produtos e receituários típicos da região centro estiveram em destaque no Taste of London. Mas estas presenças ainda não chegam , diz José Borralho. "A gastronomia devia entrar nas prioridades para captação de novos turistas com a criação de um modelo estratégico a seguir por todas as entidades envolvidas. Não podem ser a Aptece ou a AHRESP [Associação da Hotelaria e Restauração] sozinhas. Quando o esforço é conjunto é mais fácil chegar mais longe." Apela por isso à construção de políticas, como o "apoio à exportação de produtos" que distingam Portugal, e a um trabalho mais direto dos agentes de turismo com os produtores, para que se aumente a base de clientes e se crie uma rede de negócios a pensar na captação de novos turistas.

Fonte: Dinheior Vivo, 17.09.2017 

 

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